sábado, 25 de janeiro de 2014

"O tempo passou e me formei em solidão"

Sempre gosto de ler os jornais de distribuição gratuita que circulam mensalmente ou em  outro ritmo de intervalo aqui na região onde moro. São belos ensaios! Aprecio textos, receitas e sugestões diversas. Novidades? Nem sempre eles trazem alguma realmente útil. Busco mesmo são os textos, as crônicas, os colunistas que esbanjam sabedoria...
Hoje, resolvi postar uma crônica daquelas que a gente lê, se identifica, lê de novo, se emociona, e então, recorta e cola num daqueles caderninhos que deixamos guardado no fundo de uma gaveta qualquer para a posteridade. 
A mensagem é simples. E de tão singela, revela a mais pura verdade. A dura realidade de uma sociedade que parece ter se esquecido o valor do calor humano.
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Imagem meramente ilustrativa Daqui   

     Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho porque a família toda iria visitar algum conhecido. Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.
   Ninguém avisava nada, o costume era chegar de pára-quedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita. Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.
   - Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta o compadre.
    E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Ai chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.
    - Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!
     A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro... Casa singela e acolhedora. A nossa também era assim.
   Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha - geralmente uma das filhas - e dizia:   
    - Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.
     Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite... Tudo sobre a mesa.
      Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.
     Pra quê televisão? Pra quê rua? Pra quê droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança... Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam... era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade...
      Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longas, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida. Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa... A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos... Até que sumissem no horizonte da noite.
     O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, e-mail... Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:
     - Vamos marcar uma saída!... - ninguém quer entrar mais.
   Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.  
     Casas trancadas... Pra quê abrir? O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos, do leite...
      Que saudade do compadre e da comadre!

Texto de José Antônio Oliveira Resende, Professor do Departamento de Letras da UFSJ.
Fonte: ORIENTE-SE, Jornal Informativo da região Leste de Belo Horizonte & Sabará, Ano I - Nº 7 - Outubro de 2013.

10 comentários:

  1. Texto lindo, delicioso de ler!!Esse tempo está bem longe,pena!!bjs, tudo de bom, ainda aqui na praia,chica

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  2. Muito legal o seu texto, Anabela. Gostei.

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  3. Isso mesmo. Reviver essas histórias antigas remete a uma gostosa nostalgia, vale a pena ver que o mundo era menos tecnológico (o lado negativo falando da tecnologia, existe) e que hoje em dia a coisa é mais disse por dizer, fazes nada para comparecer, e mais uma vez: a tecnologia toma conta.

    Nada contra a dita cuja tecnologia, mas sem sentir, perdemos valores humanos de forma abrupta assim, dessa forma de como ela se expande.

    Bjs flor

    http://thaiscavalcantemodaebeleza.blogspot.com.br/

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  4. Nossa, que texto lindo e reflexivo pra mim. Eu sou uma dessas pessoas que não abre muito suas portas... Mas acho que mais por falta de tempo mesmo. No ano passado quando não trabalhava fora eu sempre recebia visitas em casa, agora que trabalho o dia inteiro nem consigo organizar nada.

    Boa semana!
    Beijos!

    www.mamaenadia.com

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  5. Nossa, que blog delicioso!! você posta também no facebook? por lá é mais fácil de seguir. parabéns pelo carinho com as receitas e a documentação de cantinhos deliciosos de Minas! :)

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  6. Oi Anabela
    Este texto é maravilhoso, já conhecia, mas não me canso de ler novamente, é bem uma verdade, e retrata exatamente minha infância e adolescência, vividas numa fazenda e depois numa cidade do interior; hoje isto não existe mais.
    Beijo

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  7. Olá, queria Anabela
    Quando a porta do nosso coração está aberta... a casa também se abre...
    Bjm fraterno

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  8. Olá,
    Que texto lindo, lembrei de tempos bem vividos...reclamei outro dia com pessoas fazendo "cerimônia" p/ vir na minha casa, tem que agendar, tem que ser tal dia, isso pode, aquilo não pode. Porque complicamos tanto com o passar do tempo? Acho que não é só medo de ladrão, introduzimos muitos rituais neuróticos na nossa convivência tão moderna. Bjo.
    Nara Cäsar.

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  9. Isso sim emociona! Que crônica gostosa, que realidade de outrora. Hoje? Hoje comemoramos nossos aniversários num restaurante e cada um paga a sua conta! Aliás, o que me nego a aceitar. Conheci essa 'delicadeza' através de meus filhos e seus amigos. Que coisa mais grosseira... Mas, como diz o texto, a solidão está mais presente do que nunca, todos vão ao encontro com seus Smartfones!
    Um beijo!

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  10. Anabela:
    Atualmente a tendência são os encontros fora de casa, onde também ecoam risadas e bate-papos.
    Mas, com certeza o aconchego do lar é insubstituível.
    Uma salva de palmas para o texto de José Resende e á VOCÊ por ter compartilhado essa pérola.
    Bjs.:
    Sil
    http://meusdevaneiosescritos.blogspot.com.br/

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