terça-feira, 9 de outubro de 2012

60 anos após a grande viagem de Rosa, o sertão ainda corre risco


 " Árvores sem folhas, terra seca e uma casinha de pau-a-pique. Essa é uma das imagens que surgem em nossa mente quando ouvimos falar em sertão." (Pinheiro, Cunha e Ferraz)
Dentre as outras imagens do sertão, em minha mente surge a poeira vermelha que o vento levanta e faz a vista embaçada enxergar ao longe um vulto branco, em cima de um cavalo que vai seguindo estrada a fora. Lembro do chão muito seco e já quase rachado, dos quintais sem horta, com poucas galinhas e um cachorro malhado com as partes brancas quase  marrom. Dos chapéus de couro ou palha, da pele do sertanejo queimada pelo Sol, da restrição de alimentos e das viçosas flores de mulata enfeitando os arredores das casas...
Já Guimarães Rosa¹, segundo Mônica Meyer em seu Ser-tão Natureza: a natureza em Guimarães Rosa; valorizava o conhecimento, a cultura popular. Aprendeu com os vaqueiros os nomes dos bichos, das plantas, dos rios...
Sessenta anos após a grande viagem do escritor, seus relatos de viagem parecem escritos ontem...
" Afora os bois, eu só via o céu, o Sol e o capinzal. Era um dia tão forte, que a luz no ar mais parecia uma chuva fina, dançava no ar como cristal e umas teias de aranha ou uma fumacinha, que não era. Mas, de pancada, tudo parou : gritaram adiante, e eu vi o fogaréu. Aí era fumaça mesmo, com os labaredos correndo feio, em nossa frente, numa largura enorme, vindo pra nossa banda [...]. Uma porção de bichos, porco-do-mato, todos estavam ali também. Mas a fogueira não tinha sopitado. Era só um tempo, um prazo que o demônio dava para se morrer mais demorado. Porque mesmo longe o fogo zunia. E aqueles bichos todos estavam ali, pedindo socorro a gente."
Nesses dias de intenso calor, pouca umidade e uma corrida desenfreada do homem pela devastação do que resta do cerrado, episódios assim ainda são quase cotidianos. E, o que faria Guimarães Rosa para salvar o que ainda resta do sertão?
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¹Nome: João Guimarães Rosa

   Nascimento: 27/06/1908 , Cordisburgo – MG
   Falecimento: 19/11/1967, Rio de Janeiro - RJ
   Profissão: médico e escritor que inaugurou uma metamorfose no regionalismo  
     brasileiro.
   Principal obra literária: Grande sertão Veredas.
   Uma frase: “ ... agente morre é para provar que viveu.” dita em 16/11/1967

7 comentários:

  1. Que interessante postagem, Aninha querida.
    Bom, mudei de casa e aqui não tem "aquele" quintal tal como na outra casa, mas tudo bem, faço o que der para continuar a cultivar minhas plantas e as orquideas.Vai vir aqui, né?

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  2. Olá Anabela
    Excelente postagem, texto muito bem escrito.
    A imagem retrata bem a ideia de sertão.
    Beijo.

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  3. Gostei muito do seu blog! Parabéns!

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  4. Não sei o que Guimarães Rosas faria se visse o que está a acontecer ao nosso planeta; continuaria de certeza a lutar contra toda essa insensatez do ser humano. Sempre ouvi falar muito em Guimarães Rosas, mas pouco sei da obra dele, confesso. Irei investigar para conhecer melhor. Gostei muito deste texto, Anabela. Obrigada pela partilha. Fica bem, amiga e até breve
    Emília

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  5. ...traigo
    ecos
    de
    la
    tarde
    callada
    en
    la
    mano
    y
    una
    vela
    de
    mi
    corazón
    para
    invitarte
    y
    darte
    este
    alma
    que
    viene
    para
    compartir
    contigo
    tu
    bello
    blog
    con
    un
    ramillete
    de
    oro
    y
    claveles
    dentro...


    desde mis
    HORAS ROTAS
    Y AULA DE PAZ


    COMPARTIENDO ILUSION
    ANABELA

    CON saludos de la luna al
    reflejarse en el mar de la
    poesía...




    ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE LEYENDAS DE PASIÓN, BAILANDO CON LOBOS, THE ARTIST, TITANIC SIÉNTEME DE CRIADAS Y SEÑORAS, FLOR DE PASCUA ENEMIGOS PUBLICOS HÁLITO DESAYUNO CON DIAMANTES TIFÓN PULP FICTION, ESTALLIDO MAMMA MIA,JEAN EYRE , TOQUE DE CANELA, STAR WARS,

    José
    Ramón...

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  6. Me alegra muito que lembre Guimarães Rosa aqui. O autor é meu objeto de pesquisa no mestrado. Eu fico tentado a responder sua pergunta como se fosse GR: o que teria para ser feito foi feito. O sertão, espaço imaginário de repouso, foi salvo, culturalmente, pela alquimia da palavra criadora transformado em mito literário, espalhado por toda a obra, mas de forma bastante concentrada em GS:V.
    Um grande abraço e ótima semana, Anabela.
    Gilson.

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  7. Querida Anabela!
    Me encantei com este teu post poético e ao mesmo tempo tão realista, sobre o sertão e seus cenários insólitos...E realmente me pergunto com frequência sobre o destino do sertão e de suas veredas,diante da agressiva ação humana,que transforma, mata e mutila a natureza e a cultura das gentes simples da terra. Certamente o próprio Guimarães estranharia a onda de desolação deste Brasil que muita gente ainda desconhece...Fruto da ganância que corrompe e como diria Caetano Veloso,"destrói coisas belas"... Mas como a esperança é a última que morre, quero ainda acreditar que seja como for, o sertão lutará e ainda sobreviverá à ira do fogo,da secura da terra, e das esquisitices e maldades humanas...
    Beijo grande,amiga!!!!
    Teresa

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