quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Os ventos de agosto

Como escreveu um poeta e cantaram as mais belas vozes, é hora de fazer uma PRECE AO VENTO :
" Vento que balança as folhas do coqueiro,
vento que encrespa as ondas do mar,
vento que assanha os cabelos da morena,
trás noticias de lá.
Vento que assobia no telhado,
chamando a lua pra espiar,
vento que na beira lá da praia,
escutava meu amor a cantar.
hoje estou sozinho e tu também,
triste e lembrando do meu bem.
Vento diga por favor,
a onde se escondeu o meu amor."
Agosto é por nós conhecido como o mês dos ventos e do desgosto. Como sou positiva, prefiro falar dos ventos e nem preciso ir muito longe para sentír seu sopro frio agredindo minha pele. Basta chegar na janela, ou simplesmente olhar a paisagem através da vidraça.
Como na poesia que citei, o vento agora balança as folhas de um coqueiro que existe no quintal do vizinho. É um coqueiro conhecido aqui em Minas Gerais pelo nome de "licuri'. A espécie dá um cacho de pequenos frutos que quando amadurecem ficam bem alaranjados e são docinhos. Muito apreciado pelos pássaros, atrai periquitos e maritacas que alegram nossas manhãs.
Agosto é um mês traiçoeiro para a saúde, pois o dia varia entre horas de calor e frio, tornando-se muito fácil adquirir uma friagem que resulta em resfriado, gripe e como diziam os antigos, até uma tísica.
Os ventos dessa época levantam muita poeira, mesmo em lugares asfaltados ela fica bastante visível e dá muito trabalho quando o assunto é limpeza das casas.
Nos bairros periféricos, sem ruas calçadas, nada escapa da poeira. Dá até pena de ver as pessoas afundando os pés na terra solta . Se a poeira for em lugar onde a cor da terra é vermelha, então ...
Certa vez, acompanhei minha tia Maria até a casa de uns parentes no interior. Era final de julho e a poeira já estava alta. Fiquei impressionada de ver as folhas das árvores naquele caminho de estrada de terra. Estavam pesadas de tanta poeira. Quando passavam os carros ou o vento chegava, ninguém enxergava um palmo a frente do rosto.
O que nessa viagem mais me chamou a atenção, foi o nosso retorno. Como a casa onde estávamos hospedadas era longe da cidade, resolvemos pegar o ônibus que vinha da cidade do Rio Vermelho para Belo Horizonte, numa parada chamada no lugar de " parada do Mato Grosso".
Debaixo de um sol já bastante quente ficamos por um bom tempo esperando. quando de repente em meio a uma nuvem de poeira vermelha surge o õnibus. Do lado de fora não se via nada lá dentro, apenas umas cabeças empoeiradas olhando quem iria entrar.
Do lado de dentro tudo era poeira. Em marcha lenta não havia como entrar o vento da velocidade, mas o vento de agosto, pois já era início do mês, fazia a festa!!!

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Lembranças da infância

Hoje lembrei-me de um tempo que tenho saudades. Minha vida de criança pobre numa vila do subúrbio de Belo Horizonte. Não que ela tenha sido diferente da de outros meninos e meninas daquela época, mas as pessoas que fechavam o circulo de conhecidos nos anos 70 e 80 são para mim raridades.
As rezas do mês de maio eram uma deliciosa diversão. Nos éramos levados por nossas mães, os homens raramente iam. Cada dia a imagem de nossa senhora Mão dos Homens era levada para uma casa diferente.
Rezava-se o terço e outras orações, depois havia coroação da imagem e por fim o leilão. Nos dias de sorte os donos da casa ofereciam uns quitutes para todos, mas era raro.
A imagem era levada de uma casa para outra em procissão. Por onde passava, os carros paravam e os bares tinham suas portas abaixadas. Era um tempo de muito respeito.
Todos os anos nós recebíamos a imagem em nossa casa. Mamãe fazia um altar todo enfeitado com flores, colocava as melhores toalhas e colchas rendadas e pedia prendas para o leilão em toda a vizinhança.
Quem fazia o leilão era o vendedor de pão. Naquele tempo não havia padaria perto de casa e todas as manhãs ele vinha sempre gritando:
- Padeiro! Olha o padeiro!!!
E todos corriam para comprar o pão.
Algumas vezes o pão vinha bem quentinho e eu nunca soube como o tal padeiro fazia para mantê-lo assim.
Na verdade, eu nunca soube se quer o nome daquele homem. Mas, sei que ele ainda é vivo. Sempre o vejo quando volto lá na vila. Já velho, ainda anda pelas ruas  vendendo sorvete.
Gostava também de ir nas procissões do padre João, na igreja de nossa senhora do Perpétuo Socorro. Eram de percurso  longo. Ele ia na frente e colocava a criançada entre as duas filas e  de vez em quando olhava para trás para ver se todos estavam seguindo direitinho. Padre João era daqueles que ainda usava batina preta. Foi ele quem me batizou, a mim e a meus irmãos. Era calvo, usava óculos e tinha mania de ficar piscando. Lembro-me do dia em que ele vestiu uma batina nova para celebrar a missa. Na hora das leituras ele sentou-se na cadeira e ficou arrumando carinhosamente a roupa. Todos perceberam que era batina nova.
Ah! Sempre tinha banda de música também.
Teve um ano que mamãe vestiu a mim e a minha irmã de anjo. Ficamos todas empolgadas e eu até cantei o versinho para colocar a palma em nossa senhora. Nessa época eram mais animadas as celebrações nas igrejas, talvez porque quase todos eram católicos.

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Observando a Serra do Curral

Da janela da sala consigo visualizar um pouco do resta da Serra do Curral. Bem menos do que eu avistava quando vim morar aqui. E menos ainda do que conseguia ver quando era adolescente.
Lembro-me de uma paisagem bem esverdeada, sem casas, sem trilhas, encontrando-se apenas com o céu. Era um tempo diferente esse. Nós podíamos observar a paisagem de tudo que havia aqui na região em direção a serra. É que não havia prédios, eles simplesmente tamparam a nossa visão. Hoje é difícil ver a serra mesmo tão acabada como está, por causa dos edifícios construidos nas últimas décadas.
Nos anos 80, a moda aqui em BH era uma campanha pela preservação da Serra do Curral, mas de nada adiantou. Os novos bairros que surgiram com a inauguração do BH shopping, e a ganancia das mineradoras, destruiram a nossa mais valiosa beleza natural.
Cada vez que passo pelas imediações do Belvedere, fico assustada com a rapidez com que se deu a urbanização milionária naquele lugar. Se a Comissão organizadora da construção da capital estivesse vendo o futuro do lugar que escolheram para construir a Capital de Minas Gerias, ficariam alarmados.
Hoje, quando caminhei na pista da José Cândido, decidii que vou tirar umas fotos da serra, porque de lá ainda temos uma visão um pouco melhor. Sei que do jeito em que caminha as coisas, meus netos talvez não veram esse espaço em extinção na cidade.
A pista de caminhada recebeu nos últimos dias uma caprichada da prefeitura. Cotaram o gramado e podaram as árvores, além de arrumar o piso. Como lá tem muitas árvores é bom para a gente perceber melhor o espaço. Notei que há mangas verdes crescendo e alguns ipês floridos. Lá tem ainda pés de jambo, pau-doce, angá, pitanga, coco e outras.
Todos os dias centenas de pessoas caminham por lá. É também caminho para pedestres e estudantes das escolas públicas da região. A única coisa que não gosto é dos ciclistas atrevidos que em meio a todos os pedestres passam com suas bicicletas correndo e com perigo de atropelar alguém.
Como vivemos num país onde os indiciplinados fazem quase sempre o que querem, sem punição, temos que aturá-los, pois não há fiscalização.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O barulho nos centros urbanos

Há coisas nessa vida que temos que suportar. O barulho dos grandes centros urbanos é uma delas. Algumas pessoas até dizem que com o tempo a gente se acostuma a tudo, mas eu que nasci e me criei numa grande cidade, vez ou outra me pego incomodada com o barulho dos carros da que passam na avenida onde moro, principalmente nas madrugadas de final de semana.
Um barulho que me atrapalha a concentração é o dada bomba d'água aqui do prédio. É um horror. Além de velha e gasta, ela emite um som muito alto todos os dias. Como o gasto de água é grande e a pressão nessa época do ano é pouca, ela liga e fica no mínimo seis horas ligada. Para quem mora no primeiro andar, considerando que ela fica logo abaixo da escada que dá acesso ao prédio, é um verdadeiro tormento.
Aqui em Belo Horizonte, o pior de todos os sons é o dos carros que passam tocando o tal "batidão" nos finais de semana. Além do barulho ensurdecedor, a letra das músicas é de péssima qualidade. Há letras suportáveis, mas os jovens escolhem quase sempre as que causam impacto moral. E assim vamos maltratando nossos ouvidos sem direito a escolha e sujeitos aos confrontos de mais esse choque de gerações.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pior do que procurar, é procurar e não encontrar

Estou desapontada com uma busca sem resultados que me custou umas duas horas diante da tela do computador. Imagine que resolvi me informar mais sobre um lugarejo que há alguns anos um vereador do município de Alvorada de Minas, me disse existir perto do núcleo urbano da cidade e que seria o local de nascimento de meu pai, que alí teria vivido até a adolescência.
Sei que seria bem mais fácil perguntá-lo, mas meu pai não gosta de falar do seu passado e isso me deixa frustada porque a mamãe conta tudo e mais alguma coisa sobre a vida dela. Sei tanto da família de minha mãe, do lugar onde ela viveu, dos casos vividos por seus ancestrais, que até pareço uma espécie de guardiã da memoria.
Apesar de sermos pobres, minhas tias sempre que acham algo antigo e de valor afetivo para a família, me entregam para guardar. Isso, fora as coisas que eu mesma elejo como importantes e resolvo colocar num cantinho.
Mas voltando no assunto da busca, nada encontrei sobre o lugar. Acreditem, em pleno século XXI, nenhum site que fala sobre a existência do município possui endereço de contato. Fico pensando em como pode uma prefeitura e uma câmara municipal funcionar sem contatos na rede. Agora até entendo o que vivenciei há uns vinte anos atrás quando visitei pela única vez aquela cidade.
Na ocasião, pegamos o ônibus por volta das sete da manhã em Belo Horizonte para a cidade do Serro, onde cheguemos por volta das treze horas. Passamos a tarde visitando igrejas e comprando queijos, pois o ônibus para Alvorada de Minas somente sairia dezenove horas.
Embarcamos sem atraso, mas umas duas quadras o local de embarque o veículo estragou. Mandaram chamar o mecânico. O homem disse que não poderia fazer o conserto porque estava na hora do jantar dele e depois teria que repousar, pois não trabalhava de barriga cheia.
Ali ficamos todos esperando por cerca de duas horas. Quando o mecânico aparece, calmamente começa a retirar os parafusos do piso, retirando peças e por aí foi ... Uns quarenta minutos depois, o conserto estava pronto e iniciamos viagem que duraria em torno de uma hora e meia.
Nesse momento muitos dormiam e outros já haviam se embriagado com cachaça. Disseram-me que lá todos bebem muito, até em serviço. Lógico que duvidei, mas quando me lembro do balanço daquele ônibus, fico em dúvida.
Chegamos inteiros na pequena cidade. No primeiro instante, me chamou a atenção os cavalos amarrados de frente ao bar onde foi o ponto final da viagem. Dias depois fiquei sabendo que era a gente da roça que vinha beber na cidade, que ali no bar havia dança todas as noites e que os cavalos já sabiam até o caminho de volta para casa de tanto levarem seus proprietários embriagados.
Bom, naquela ocasião achei o lugar muito atrasado, fiquei horrorizada de saber que um vereador recebia um salário mínimo por mês, que para telefonar para casa tive que recorrer ao único telefone da cidade, num posto da companhia telefônica que ficava na rua principal. Voltei pensando na sorte que tiveram os que se aventuraram a viver em outro lugar.

sábado, 7 de agosto de 2010

Há gente em toda parte

Hoje tive que fazer uma coisa que já não me dá tanto prazer como antigamente: ir ao shopping. Acontece que por ser véspera do dia dos pais, tornou-se inevitável recorrer ao hábito de comprar presentes. Minha prole queria presente para o pai, e eu apesar de não ter comprado um para o meu velho, confesso que pensei na possibilidade. fui barrada pela multidão de pessoas que andavam, ou melhor, eram levadas umas pelas outras nos corredores e nos interiores das lojas. Tratei logo de resolver o problema da criança e voltamos para casa.
Não sei porque as pessoas vão em grupos ao shopping numa data que todos sabem da enorme movimentação. Vestem-se com suas roupas de ir a missa, lotam os ônibus e o metrô, passam horas olhando vitrines, bebendo água e tomando o sorvete em promoção. Os que tem dinheiro para gastar nem lá aparecem.
Fiquei horrorizada com a coragem de uma mulher, aparentemente jovem e pobre, a corajosa estava acompanhada de três meninos com idades entre quatro e um ano e meio no máximo, fazendo malabarismo em meio ao povo para não perdê-los. Como ela só tem duas mãos, segura os menores e o outro agarrava-se na sua roupa. Para completar, a barriga dela já aparenta uns cinco ou seis meses de gravidez. E há quem pense que apenas nossas avós tinham muitos filhos porque faltava TV para assistir ...
Outra coisa que me chamou a atenção é a falta de educação dos motoristas, que sabendo não haver espaço para estacionar, param seus carros no passeio, outros não respeitam a velocidade e nem a faixa de pedestre nas ruas do pátio do shopping.
O comércio ambulante em torno dos pontos de ônibus está cada vez maior. Vi churrasquinho, picolé, cd's pirata, água, refrigerante e lanches variados.
Como não há mais as filas de passageiros para entrarem nos ônibus, coisa que desde o final da década de 80 desapareceu aos poucos, todos ficam de olhos abertos e ao menor sinal da aproximação da linha esperada, começa a aglomeração e o corre-corre. É um exercício de paciência.
Lembro-me de quando a gente chegava no ponto e obedecíamos a fila indiana. No centro, cada linha de ônibus tinha um ponto final, onde o carro ficava parado alguns minutos e os passageiros entravam calmamente pela porta de trás e quando todos os bancos estavam ocupados, quem quisesse viajar em pé podia passar na frente e entrar, os demais continuavam na fila esperando outro carro chegar. E assim, havia respeito e organização.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Até que enfim, criei coragem!!!

Há muito tempo venho pensando em escrever sob o meu olhar pela cidade, as pessoas, os problemas cotidianos, alegrias e tristezas, a natureza e tantas outras coisas que me passam ou já passaram pela vida. Cheguei a escrever versos sobre a vida nos grandes centros urbanos, mas nada que me levasse a dar continuidade nos registros.
Hoje, criei coragem e abri esse blog, que a partir de agora pretendo usar como um diário moderno, digo moderno porque sou bastante saudosista,e os que me conhecem irão assustar com tamanha ousadia.
Por falar em coisas antigas, ouço enquanto escrevo um programa de TV que um parente aqui em casa está assistindo.Não que o programa seja velho, mas o tema do programa é que está voltando ao passado, colocando no ar alguns cantores que me remetem a época de minha infância. Um tal de Genival Lacerda, que canta músicas que minha mãe detestava e achava muito indecentes, até desligava o rádio quando elas tocavam. Em minha infância o rádio ainda era bastante presente em todas as casas. Lembro-me aqui em Belo Horizonte que as rádios mais ouvidas eram Atalaia, Cultura, Itatiaia e Guarani, todas em AM. depois surgiram as FM e foi uma revolução, porque a programação era bem mais moderna, principalmente as músicas.
Lá em casa o rádio era ligado as cinco da manhã, meu pai escutava o programa "Delmario é o espetáculo" num aparelho a pilha que ficava na cabeceira de sua cama. No meu quarto eu acordava com o som e ouvia mesmo achando aquilo um atraso de vida. Até hoje lembro os versinhos de abertura do programa, algo mais ou menos assim: " no terreiro um pé de cana, umas torceiras de banana, São Domingos e São Tomé, eu sou o manjeiricão e pra lá do ribeirão uns pezinhos de café". Delmario fazia o programa com uma apresentadora chamada Tina ou Dina Gonçalves.